sábado, 17 de julho de 2010

Desenvolvimento da consciência

O Homem como sistema aberto

Nos primeiros capítulos, estudamos dois aspectos fundamentais e característicos da existência humana e da convivência social – a cultura e o trabalho -, pertencentes à esfera do fazer e do saber fazer. Passemos agora a outro aspecto, mais ligado à esfera do saber propriamente dito : a consciência.

Talvez nada caracterize melhor o ser humano do que a consciência, isto é, o desenvolvimento dessa atividade mental que nos permite estar no mundo com algum saber, “com-ciência”. Por isso, a biologia classifica o homem atual como sapiens sapiens: o ser que sabe que sabe. Isso significa que o homem é capaz de fazer sua inteligência debruçar sobre si mesma para tomar posse de seu próprio saber, avaliando sua consistência, seu limite e seu valor.

O animal sabe. Mas, certamente ele não sabe que sabe: de outro modo teria há muito multiplicado invenções e desenvolvido um sistema de construções internas. Consequentemente, permanece fechado para ele todo um domínio Real, no que nos movemos. Em relação a ele, por sermos reflexivos, não somos apenas diferentes, mas outros.Não só simples mudança de grau, mas mudança de natureza, que resulta de uma mudança de estado.

CHARDIM, Teilhard de .

O fenômeno humano, p 187.

O processo contínuo de conscientização faz do homem, portanto, um sistema aberto, fundamentalmente relacionado com o mundo e consigo mesmo. O ser humano pode voltar-se para dentro de si, investigando seu íntimo. E projetar-separa fora, investigando o universo.

Assim, a conscientização faz do homem um ser dinâmico, eterno caminhante destinado à procura e ao encontro da realidade. Caminhante cuja estrada é feita da harmonia e do conflito com o ser, o saber e o fazer, dimensões essenciais da existência humana.

Despertar da consciência critica

Vimos que a consciência pode centra-se sobre o próprio sujeito, sondando a interioridade, ou sobre os objetos exteriores, sondando a alteridade (do latim alter “outro”) . Há, portanto, duas dimensões complementares no processo de conscientização:

· Consciência de si, isto é, concentração da consciência nos estados interiores do sujeito, que exige reflexão. Alcança-se, por intermédio dela, a dimensão da interioridade que se manifesta através do processo de falar, criar, afirmar, propor, inovar.

· Consciência do outro, isto é , a concentração da consciência nos objetos exteriores que exige atenção. Alcança-se, por intermédio dela, a dimensão da alteridade, que se manifesta através do processo de escutar, absorver, reformular, rever, renovar.

O despertar da consciência crítica (ou senso crítico) depende do crescimento dessas duas dimensões da consciência: a reflexão sobre si e a atenção sobre o mundo. Se apensas um desses aspectos se desenvolve, há uma deformação, um abalo no desenvolvimento da consciência crítica.

Suponhamos, por exemplo, o crescimento só da consciência do outro. Essa atenção unilateral ao mundo, sem reflexão sobre si mesmo, conduziria à perda da identidade pessoal, à exaltação dos objetos externos, ao alheamento.

Por outro lado, Imaginemos o crescimento só da consciência de si. Essa reflexão em trono do eu, sem atenção sobre o mundo, conduziria ao isolamento, ao fechamento interior, ao labirinto narcisista.

O escritor alemão Wolfgang Goethe (1749-18322) dizia que o homem só conhece o mundo dentro de si se toma consciência de si mesmo dentro do mundo. Assim, o desenvolvimento da conscientização humana depende da superação do isolamento e do alheamento. É processo dialético, que se movo do eu ao mundo e do mundo ao eu. Do fazer ao saber. E do saber ao refazer, e assim por diante.

Modos de consciência

Geralmente relacionamos a consciência apenas à capacidade cognitiva, ou seja, à capacidade de apreensão intelectual de uma dada realidade. No entanto, o ser humano se relaciona com a realidade através de múltiplos sentidos e múltiplas capacidades. Por isso , podemos distinguir alguns modos da consciência que estabelecem essa relação homem-mundo.

Consciência Mítica

O termo mito tem diversos significados. Pode significar: uma ideia falsa, como quando se diz “o mito da superioridade racial dos germânicos difundidos pelos nazistas”;uma crença exagerada no talento de alguém , como em “ Elvis Presley foi o maior mito da musica popular mundial”, ou ainda algo irreal e supersticioso, como o “ mito do saci-pererê”.

Quando falamos em mito num sentido antropológico, que é o que nos interessa aqui, queremos nos referir às narrativas e ritos tradicionais , integrantes da cultura de um povo, principalmente entre as populações primitivas e antigas, que utilizam elementos simbólicos para explicar a realidade e dar sentido à vida humana. Para o especialista romeno em história das religiões Mircea Eliade (1907-1986): “ O muito conta uma história sagrada: ele relata um acontecimento ocorrido no tempo primordial (...) O mito narra como, graças às façanhas dos entes sobrenaturais, uma realidade passou a existir”.

Através dos mitos , os homens procuravam explicar a realidade e, a partir dessa explicação, criavam meios para, por exemplo, se proteger dos males que os ameaçavam. Por intermédio de ritos sagrados, afirmavam e renovavam suas alianças com os seres sobrenaturais e, com isso, produziam uma sensação de amparo diante dos perigos da vida.

Embora não fosse um conhecimento do tipo racional, conforme veremos adiante, a consciência mítica mostrava-se operativa, isto é, trazia resultados , transmitindo valores e normas de conduta desejados pelas sociedades. Nesse sentido, as lendas míticas de vários povos são ricas em metáforas e reflexões sobre os homens e sua condição do mundo.

Consciência religiosa

A consciência religiosa compartilha com a consciência mítica o elemento do sobrenatural, a crença em um poder superior inteligente, isto é, a divindade. No entanto, é uma consciência que, historicamente, conviveu, dialogou e debateu com a razão filosófica e cientifica. Sua diferença em relação a esses saberes esta na crença em verdades revelada pela fé religiosa enquanto a filosofia e a ciência se apóiam sobretudo na razão para alcançar o conhecimento.

Os longos debates travados entre os defensores da fé e os da razão , durante a Idade Média, não conseguiram conciliar satisfatoriamente esses dois termos . No período seguinte, a discussão prosseguiu entre os filósofos. O francês René Descartes (1596-1650), por exemplo, colocava a ênfase na razão, enquanto o também francês Pascal fazia o contraponto ao afirmar que “o coração tem razões que a razão desconhece”, isto é, existem outras possibilidades de conhecimento das quais a razão não participa.

Consciência intuitiva

A intuição é uma forma de consciência que pode ser apontada como um saber imediato ou seja, que ocorre como um insight. Desse modo, a intuição distingue-se do conhecimento formal , refletido, que se constrói através de argumentos.

É possível falar na existência de uma intuição sensível e uma intuição intelectual. O filosofo grego Aristóteles se refere à intuição intelectual como o conhecimento imediato de algo universalmente valido e evidente, que, posteriormente, poderá ser demonstrado através de argumentos. Já a intuição sensível seria um conhecimento imediato restrito ao contexto das experiências individuais singulares. Ou seja, são aquelas “leituras de mundo” guiadas pelo conjunto de experiências de cada individuo e se que, dessa forma, só podem ser “decifradas” a partir de suas vivencias subjetivas. .

Em um e outro caso, a intuição tem caráter sincrético, isto é , representa uma aglutinação de elementos indistintos que, posteriormente , podem ser desdobrados em uma analise . Quando isso se der, estaremos entrando no conhecimento racional .

Consciência racional

O filosofo Hegel considera que há três grandes formas de compreensão do mundo, que seriam a religião , a arte e a filosofia. A diferença entre elas estaria no seu modo de consciência enquanto a religião apreende o mundo pela fé , a arte o faz predominantemente pela intuição e a filosofia , pelo conhecimento racional.

A consciência racional busca a compressão da realidade por meio de certos princípios estabelecidos pela razão, como, por exemplo o de causa e efeito ( todo efeito deve ter sua causa). Essa busca racional se caracteriza por pretender alcançar uma adequação entre o pensamento e a realidade, isto é, entre explicação e aquilo que se procura explicar.

Para o racionalismo grego, de Platão e Aristóteles e outros, conhecer significava entender as causas (...) Para se conseguir definir o mundo em termos de causas, é essencial desenvolver a idéia de uma cadeia unilinear (..) é necessário supor uma série de princípios: o princípio de identidade (A=A), o princípio de não contradição (é impossível algo ser A e não ser A ao mesmo tempo) e o princípio do terceiro excluído (ou A é verdadeiro ou A é falso e não há terceira possibilidade). A partir desses três princípios derivamos o modelo típico do pensamento racional ocidental.

ECO,Umberto. Interpretação e superinterpretação, p. 31 e 32.

O conhecimento racional é comum à ciência e à filosofia. Esses dois campos do saber racional se mantiveram ligados por muitos séculos, mas, principalmente, a partir da revolução cientifica , no séc. XVII, foram separados e hoje guardam características próprias.

A ciência desenvolve métodos científicos, baseados em experimentações , que permitem a observação dos dados empíricos e a sua organização em teorias , para alcançar o que é universal em relação ao fenômeno ou objeto investigado. Devido ao acumulo de conhecimento já alcançado pela humanidade, a ciência tende cada vez mais à especialização.

A filosofia se distingue da ciência por ser mais teórica e não condicionar o objeto de sua análise a um laboratório de experimentações . A filosofia também não pretende um saber especializado, e sim um conhecimento que resgate a visão de conjunto. Por isso, o diálogo entre filosofia e ciência é fundamental, pois um lado complementa o outro . Nesse dialogo , a filosofia pede valer-se dos resultados alcançados pela ciência e questiona-los de uma forma global.

Enquanto a ciência procura , principalmente, compreender o que são as coisas, ou seja , fornecer a chave da compressão da realidade , a filosofia , através da razão crítica, e capaz de “estranhar” essa realidade cotidianamente e, assim, proceder à reflexão em busca de seus fundamentos, percebendo o que ela é e propondo o que ela deveria ser. Em outras palavras, a filosofia não busca somente a descrição objetiva da realidade, mas avalia e questiona essa realidade.

2 comentários:

  1. Excelente blog, parabéns pelo trabalho e desenvoltura acessível.

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  2. Está muito informativo e útil, parabéns pelo blog!

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