sábado, 17 de julho de 2010

ARISTÓTELES E A BUSCA DA FELICIDADE


(extraído e adaptado de: ABRÃO, Bvernadette Siqueira. História da Filosofia. São Paulo: Nova Cultural, p. 53 a 63)

Aristóteles nasceu em Estagira, em 384 a.C, filho de Nicômaco, médico do rei da Macedônia, aos 18 anos vai para Atenas e se torna discípulo de Platão. Em 943 é chamado á Macedônia para ser preceptor de Alexandre o Grande. Em 335 volta a Atenas e funda o Liceu. Depois da morte de Alexandre, o partido anti-macedônico obriga-o a se retirar de Atenas para a Calcídia, onde morre em 322 Aristóteles é contemporâneo do período da decadência da democracia ateniense e da invasão macedônica que unifica a Grécia sob seu domínio. Atenas, já despida de seu brilho e de sua força, via seu destino entregue aos demagogos que, aproveitando a indiferença do povo com seus interesses mais imediatos. O pensamento aristotélico representa, em muitos aspectos, uma reação a esse estado de coisas.

Dono de um saber enciclopédico, Aristóteles escreveu sobre quase todos os assuntos, examinando as teorias das diversas escolas filosóficas que precederam na Grécia. Infelizmente, a quase totalidade de suas obras destinadas á difusão de suas idéias fora dos limites do Liceu foi perdida. Restam aquelas destinadas ao uso restrito dos cursos do Liceu: anotações de cursos, indicações de questões etc. Apesar disso, sua obra conhecida é bastante volumosa: versa sobre as questões de filosofia primeira ou metafísica , sobre lógica (chamada organon), sobre ciências naturais, moral e política; sobre as artes da retórica e da poética.

A crítica ao mundo inteligível

Por se dedicar ao estudo dos seres vivos e de tudo o que a natureza contém, Aristóteles não despreza, como seu mestre, a observação das coisas que se apre­sentam aos sentidos. Mais do que isso, procura integrar a percepção do mundo sensível ao conhecimento científico e filosófico.

Isso, porém, não significa que ele tenha sucumbido ao mundo sensível e às suas variações e incertezas. Se recusa a solução do mestre é porque, no seu entender, o mundo inteligível concebido por Platão apenas expli­ca a imperfeição do mundo sensível, mas nada além disso; é incapaz de explicar o universo dos sentidos, a diversidade e o movimento que nele ocorrem, a não ser pelo recurso duvidoso de um Demiurgo fabricante do universo.

O conhecimento como abstração

Se o mundo inteligível é uma ficção desnecessária e inútil, só resta ao conhecimento tornar-se o conheci­mento do mundo sensível, onde existe não a idéia de Homem ou de Cavalo, como queria Platão, mas ho­mens e cavalos individuais. Os sentidos que captam as coisas individuais constituem assim o ponto de partida. A percepção dessas coisas produz, no intelecto, ima­gens a elas correspondentes (de diversos cavalos, por exemplo). A atividade do intelecto consiste em separar dessas imagens os aspectos acidentais, como o tamanho e a cor, para ficar com o que lhes é comum e essencial. O resultado dessa operação, que é a abstração, é o conceito de cavalo.

A abstração pode avançar mais e, comparando, por exemplo, cavalos, homens e pássaros, chegar ao conceito genérico de animal. Para Aristóteles, o conhecimento é esse processo de abstração pelo qual o intelecto produz conceitos universais que, ao contrá­rio das idéias de Platão, não existem separadamente das coisas e do intelecto.

Ato e potência

A percepção do mundo sensível mostra que tudo se transforma continuamente. Para dar conta disso, Aristóteles elabora as noções de ato (energeia) e de potência (dynamis). O ato refere-se ao estado atual do ser, como existe aqui e agora. A potência, por outro lado, indica aquilo em que este ser se transforma, sem no entanto deixar de sê-lo. A semente de uma árvore, enquanto ato, é semente, mas como potência é a árvore que dela vai germinar. As mudanças e o movimento são o modo como às potencialidades do ser vão se atualizando, passando da potência ao ato.

A origem da Filosofia

Para Aristóteles, a filosofia implica o abandono do senso comum e o despertar da consciência crítica que tem uma função libertadora para o homem. O abandono do senso comum se dá em virtude do espanto (pathos), e este é a origem do filosofar.

Foi, com efeito, o espanto que levou, como hoje, os primeiros pensadores ás especulações filosóficas. No inicio seu espanto dizia respeito ás dificuldades que se apresentavam em primeiro lugar sua exploração aos fenômenos mais importantes, tais como os fenômenos da lua, os do sol e das estrelas, e enfim á gênese do universo. Ora. Perceber uma dificuldade e espantar-se é reconhecer a própria ignorância (e por isso mesmo o amor dos mitos e, de alguma maneira, amor pela sabedoria, pois o mito é uma reunião do maravilhoso). Portanto, se foi para escapara da ignorância que os primeiro filósofos se dedicaram á filosofia, é evidente que eles perseguiram o saber em vista apenas do conhecimento, e não para um fim utilitário. E o que se passou na realidade fornece a prova disto: quase todas as necessidades da vida e as coisas que interessam ao seu bem estar e á sua manutenção já tinham sido satisfeitas quando começou a busca por uma disciplina deste gênero. Concluo que não temos em vista, em nossa pesquisa, nenhum interesse estrangeiro. Mas, da mesma forma que chamamos livre aquele que é para si mesmo o seu próprio fim, e não existe para outro, assim esta ciência é também a única entre as demais que seja um disciplina liberal, uma vez que só ela é para si mesma o seu próprio fim”.

A ética

Ética: em geral, ciência da conduta humana, existe duas concepções fundamentais dessa ciência: 1ª a que a considera como ciência do fim para o qual a conduta dos homens deve ser orientada e dos meios para atingir tal fim. 2ª considera que através dos meio deveremos atingir os fins necessários que é a felicidade por meios das virtudes como a moral, coragem, temperança, e a justiça que é a maior delas.

A felicidade consiste na plena realização das próprias capacidades. Partindo deste princípio, Aristóteles demonstra que a felicidade do homem não pode consistir nas riquezas, nem nas honrarias, nem nos prazeres, porque nenhuma dessas coisas representa a plena realização das capacidades humanas.

O homem é um ser racional. Consequentemente o seu bem ou a sua felicidade (eudaimonia) deve consistir na atuação da razão. Segundo Aristóteles, a perfeita atuação da razão verifica-se na contemplação. Logo, a verdadeira felicidade é constituída pelo prazer junto com a contemplação, em harmonia com contemplação e a seu serviço.

Mas, não só na contemplação, porque o homem não é pura razão, nem puro espírito, mas também carne e sentidos. Para que o homem seja realmente feliz é necessário que sejam satisfeitas todas as suas faculdades, também as dos sentidos. A satisfação dos sentidos chama-se prazer. Logo, a verdadeira felicidade é constituída pelo prazer junto com a contemplação, em harmonia com a contemplação e a seu serviço.

As riquezas não são indispensáveis para a felicidade, embora certas quantidade de bens seja necessária para que seja possível ao homem entregar-se á contemplação sem ser perturbado por outras preocupações.

Como se vê, o ideal aristotélico de felicidade é semelhante ao ideal descrito por Platão no “Filebo”: é um mistura dosada de prazer e de ração. È um ideal bem menos ascético do que descrito por Platão na “República” e do que o seguido por Sócrates.

Aristóteles não crê que o justo seja propriamente feliz no meio dos sofrimentos. O meio para se conseguir a felicidade é a virtude, Aristóteles entende por virtude “o hábito de escolher o justo meio”. Quem o estabelece é o sábio. A definição completa soa assim: “A virtude é um disposição para escolher; ela consiste na escolha do justo meio relativo á nossa natureza, efetuada segundo um principio racional e fixado pelo homem prudente”.

Em outras palavras, a virtude é o hábito de praticar ações que estejam no meio entre dois excessos. Daí o dito conhecido: “in médio etat vertus”.

“As ações estão sujeitas a se tornarem imperfeitas ou por defeito ou por excesso; por exemplo, tanto os exercícios excessivos quanto os escassos prejudicam o vigor; o beber e o comer superabundantes ou insuficientes arruínam a saúde. O mesmo se da com a moderação, a coragem e outras virtudes; de fato quem foge ou teme todas as coisas e não enfrenta nada, torna-se tímido; quem, ao contrario. Não teme nada, enfrenta qualquer coisa e se torna temerário; quem goza toda sorte de prazeres e não se abstém de nenhum, torne-se intemperante; mas quem evita todos os prazeres, torna-se insensível. De modo que também a moderação e a coragem são arruinadas tanto pelo excesso como pela deficiência, mas são preservadas pela via do meio”.

Como se vê, Aristóteles não identifica a virtude com o saber, como fizera Platão, mas dá importância também á escolha, a qual depende mais da vontade do que da razão. Em seguida Aristóteles divide a virtude em dois grupos principais: 1ª virtudes do intelecto ou “dianoéticas”, 2ª e virtude morais.

As virtudes dianoéticas são as que concorrem para o desenvolvimento e o funcionamento das dificuldades intelectivas. Para ele, as virtudes dianoéticas são cinco: ciência intuitiva (nous), ciência intelectiva (episteme), sabedoria (sophia), arte (técbne) e ciência prática (phónesis).

A sabedoria é uma síntese de ciência intuitiva e intelectiva. O seu objeto é o fim último (que é a felicidade), ao passo que o objeto da ciência prática são os meios (que são alcançados pelas praticas das virtudes).

As virtudes morais são as que presidem ao controle das paixões e á escolha dos meios aptos para realização do fim. As virtudes morais mais importantes são as quatros virtudes chamadas cardeais. A prudência corrige o intelecto, isto é, torna-o capaz de avaliar com exatidão a bondade ou a malícia, em outras palavras, o caráter moral de uma ação. A temperança corrige o apetite concupiscível, e a fortaleza, o apetite irascível. A justiça rege o comportamento do homem em relação aos outros homens.

Existem duas espécies principais de justiça: distributiva e corretiva. A primeira diz respeito á reta distribuição, ou seja, á distribuição por parte do Estado, das honras, dos cargos e dos bens materiais aos cidadãos, segundo os sues méritos. A segunda diz respeito á imposição das penas aos transgressores da lei e á restituição aos legítimos donos daquilo de que foram privados.

Entre as virtudes examinadas por Aristóteles, ocupa lugar de relevo a amizade. Segundo ele, a amizade é tão importante que sem ela não pode haver felicidade. Esta última consiste primeiramente no exercício das virtudes especulativas e secundariamente no exercício das virtudes morais. Quem se contenta com o exercício das virtudes morais é feliz (eudáimon), quem se dedica especialmente ao exercício das virtudes especulativas é felicíssimo (eudaimonéstatos). De modo geral, Aristóteles considera o exercício das virtudes morais como um meio que facilita o exercício das virtudes especulativas. A essência da felicidade consiste na contemplação.

Atingir a felicidade depende então de uma condu­ta moral moderada, sem excesso, baseada no que Aris­tóteles denomina "meio-termo" (equivalente à justa me­dida dos pitagóricos). Tal conduta deve ser forjada pelo hábito, de modo análogo ao atleta que se forma por repetidos exercícios. Habituar-se a uma boa conduta é ter bons costumes, e isso vale muito mais do que praticar uma série de boas ações isoladas. Tal hábito é adquirido, sobretudo, pelo exercício do intelecto, que no campo moral, aspira ao que é razoável. A felicidade, em suma, obtém-se por meio da vida contemplativa, uma vida intelectual sossegada, longe das perturbações do cotidiano.

A Política

Segundo Aristóteles, a origem do estado é natural e não convencional, como afirmam os sofistas e, em parte, também Platão. Os homens unem-se para formar a sociedade não em virtude de um pacto, mas instintivamente, porque de outro modo não poderiam satisfazer a todas as suas necessidades físicas e intelectuais.

“E evidente”, diz Aristóteles, “que o Estado é uma criação da natureza e que o homem é por natureza um animal político. Se alguém, por natureza e não só acidentalmente, vive fora do estado, é superior ou inferior ao homem”. “Quem é incapaz de viver em sociedade, ou não precisa dela por ser auto-suficiente, deve ser um animal ou um Deus”.

O Estado surge pelo seguinte motivo: tornar possível não só a vida (por causa da vida), mas também a vida feliz (por causa “do viver feliz”). O objetivo da vida humana é a felicidade; o objetivo do Estado é facilitar a conquista da felicidade. Só o estado torna possível a completa realização de todas as capacidades humanas.

Constituições justas são as que servem ao bem comum e não só ao bem dos governantes. Tais são: monarquia: ou o governo de um só que cuida do bem de todos; a aristocracia: ou governo dos virtuosos, dos melhores, que cuidam do bem de todos, sem atribuir-se nenhum privilegio; a república: ou a (política), isto é, o governo popular que cuida do bem de toda a cidade.

Constituições injustas são as que servem ao bem dos governantes e não ao bem comum. São elas: a tirania: ou o governo de um só que procura o interesse próprio; a oligarquia: ou comando da massa popular que quer suprimir toda diferença social em nome da cidade.

Como todos os outros pensadores da antiguidade, também Aristóteles justifica a escravidão: “è evidente”, diz ele, “que alguns homens são por natureza livres e outros escravos”.

A Cidade e o cidadão

O bem do individuo é da mesma natureza que o bem da Cidade, mas este “é mais belo e mais divino” porque se amplia da dimensão do privado para a dimensão do social, para a qual o homem grego era particularmente sensível, portanto concebia o individuo em função da Cidade e não a Cidade em função do individuo. Aristóteles, alias, dá a esse modo de pensar dos gregos uma expressão paradigmática, definindo o próprio homem como “animal político” (ou seja, não simplesmente como animal que vive em sociedade, mas como animal que vive em sociedade politicamente organizada) e escrevendo textualmente o seguinte: “Quem não pode fazer parte de uma comunidade, que não tem necessidade de nada, bastando-se a si mesmo, não é parte de uma cidade, mas é fera ou deus”.

Entretanto, Aristóteles não considera “cidadão” todos aqueles que vivem em uma Cidade e sem os quais a Cidade não poderia existir. Para ser cidadão, é preciso participar da administração da coisa publica, ou seja, fazer parte das assembléias que legislam e governam a Cidade e administram a justiça. Consequentemente, nem o colono nem o membro de uma cidade conquistada podiam ser “cidadãos”. E nem mesmo os operários, embora livres (ou seja, mesmo não sendo cativos ou estrangeiros), poderiam se cidadãos, porque faltava-lhe o “tempo livre” necessário para participar da administração da coisa publica. Desse modo, os cidadãos revelam-se de número muito limitado, ao passo que todos os outros acabam, de alguma forma, sendo os meios que servem para satisfazer as necessidades dos primeiros.

Nessa questão, as estruturas sociopolíticas do momento histórico condicionam o pensamento aristotélico a ponto de leva-lo á teorização da escravidão. Para ele, o escravo é como que “um instrumento que precede e condiciona os outros instrumentos”, servindo para a produção de objetos e bens de uso, além dos serviços, o escravo é tal “por natureza”, como decorre da seguinte passagem: “Todos os homens que diferem de seus semelhantes tanto quanto a alma difere do corpo e o homem da fera (e estão nessa condição aqueles cujos encargos implicam no uso do corpo, que é aquilo que eles tem de melhor) são escravos por natureza e, para eles, o melhor partido é submeter á autoridade de alguém. E escravo por natureza quem pertence a alguém em potencia (e, por isso, torna-se posse de alguém em ato) e participa da razão apenas naquilo que diz respeito á sensibilidade imediata, sem possuí-la propriamente, ao passo que os outros animais não possuem sequer o gral de razão que compete á sensibilidade, mas obedecem ás paixões. E o seu modo de emprego difere de pouco, porque tanto uns quantos outros, os escravos e os animais domésticos, são utilizados para os serviços necessários ao corpo.”

E como os escravos eram frequentemente prisioneiros de guerra, Aristóteles sentiu necessidade de estabelecer também que os escravos não deveriam resultar de guerras de gregos contra os gregos, mas sim de gregos contra os bárbaros, dado que estes são inferiores “por natureza”. E o velho preconceito racial de culturas que existiam naquela época.

A Metafísica

Primeira definição de metafísica: “ta meta física”

A Metafísica começa com a conhecidíssima frase: “todos os homens tende naturalmente ao conhecimento”. Aristóteles distingue vários tipos de conhecimento: sensações isoladas, experiência (quando se acumulam varias recordações a respeito do mesmo objeto) e ciência (que nasce quando, de muitas observações empíricas, se forma uma noção universal a respeito de coisas semelhantes).

Em seguida ele demonstra que a ciência é superior á experiência: “Nós julgamos que há mais saber e conhecimento na arte (ciência) do que na experiência”. Isto porque uns conhecem a causa e outros não. Com efeito, os empíricos sabem o quê, mas não o porque, ao passo que os outros sabem o que e a sua causa.

Também a metafísica, como verdadeira ciência, é conhecimento das causas; por isso, “com o nome de sabedoria (metafísica), todos entendem aquele conhecimento que diz respeito ás causas primeiras e aos princípios”.

A metafísica estuda o “ser enquanto ser”, isso que dizer que a mesma estuda a essência do ser ou suas substancias, e não os entes (coisas materiais, isso quer dizer filosofia segunda).

Assim, também o termo ser é usado em muitos sentidos, mas todos referindo-se a um único principio: algumas coisas são tidas seres porque são substancia, outras porque são afeições da substancias outras porque são caminhos que conduzem á substancia, ou ainda porque são corrupções, ou privações, ou qualidades, ou causas produtoras ou geradoras, seja da substancia, seja daquilo a que se refere á substancia, ou mesmo porque são negações de algumas dessas referencias ou da própria substancia. (por isso dizemos que o mesmo o não-ser é enquanto não-ser).

Portanto, como existe uma única ciência de todas as coisas ditas saudáveis, também é assim em outros casos. De fato, compete a uma única ciência não somente o estudo das coisas que se dizem em um único sentido, mas também daquelas que são ditas em sentidos diversos, porém referentes a uma única natureza; de fato, estas também, de certo modo, exprimem um único significado.

È evidente, portanto que os seres serão objeto de uma única ciência, exatamente enquanto seres. No entanto, a ciência tem como objeto, essencialmente, o que é primeiro, ou seja, aquilo de que depende e em virtude do qual é denominado todo o resto. Assim, se esse primeiro é a substancia, o filosofo deverá conhecer as causas e os princípios da substancia.

As causas fundamentais das quais se ocupa a metafísica são quatro: Material, Formal, Eficiente e Final.

Causa Material: A causa material indica a matéria de que uma coisa é feita, como, por exemplo, a madeira, pedra, ferro e outras matérias, com que se pode fabricar uma mesa.

Causa Formal: A causa formal dá forma a esse material que fora usado para fabricar a mesa, por exemplo, a forma mesa torna a matéria reconhecível como objeto mesa, essa causa formal poderia ser entendida também como se fosse o projeto da mesa.

Causa Eficiente: é a causa motriz ou eficiente, que no exemplo, pode ser o artesão que trabalha a madeira, dando-lhe a forma de mesa. È a causa que faz com que a causa formal possa ter uma eficiência qualquer.

Causa Final: Por fim, a passagem da potência (madeira) ao ato (mesa) faz-se segundo um objetivo, uma finalidade, uma causa final. No caso da mesa, a causa final pode estar em ser vendida ou usada pelo próprio artesão, e assim por diante. Dentre esses quatro sentidos da causa, a final é a mais importante: se a potência atualiza-se em ato, é sempre em vista de alguma finalidade.

Em seguida Aristóteles passa a considerar as características da metafísica. Uma vês, que se ocupa das causas últimas, ela é por excelência iluminadora e, sendo afastada das coisas concretas e sensíveis, é a ciência mais desinteressada. O seu objeto consiste somente em procurar a verdade. A metafísica não é uma ciência prática, mas teoretica.

Finalmente, ela é uma ciência divina; melhor, só a metafísica pode ser chamada divina, e isso por dois motivos. De fato, uma ciência é divina ou porque a sua plena posse compete só a Deus ou porque diz respeito a coisas divinas. Ora, esta nossa ciência tem esses dois caracteres. Ninguém duvida, com efeito, de que Deus seja causa e principio de todas as coisas; e que, por outro lado, deva possuir esta ciência ou exclusivamente ou em sumo grau. Disto Aristóteles conclui: “As outras ciências podem ser mais necessárias do que esta, mas nenhuma é mais excelente”.

Segunda Definição de Metafísica:

No livro E Aristóteles oferece uma definição mais adequada da metafísica. Ele já a enunciara no livro IV, ao afirmar que “há uma ciência que estuda o ser e as propriedades do ser enquanto tal. Ela não se identifica com nenhuma das ciências particulares, porque nenhuma delas se identifica com nenhuma das ciências particulares, porque nenhuma delas se ocupa do ser enquanto tal, mas de alguma parte determinada do ser da qual estuda aspectos particulares como fazem as matemáticas”.

No livro E Aristóteles retoma esta definição da metafísica e usa-as para mostrar que a metafísica se distingue da física e da matemática. O ponto de partida é a divisão do ser em móvel e imóvel (isto é, sujeito ou não sujeito á mudança e á corrupção). Ora. Com base nesta clara divisão do ser, pode-se estabelecer que a física estuda o ser móvel (isto é, sujeito á mudança); que a matemática estuda o ser imóvel, mas de ordem material; ao passo que a metafísica estuda o ser imóvel de ordem imaterial.

Pelo fato de estudar o ser imaterial, imóvel e, portanto, divino, a metafísica pode denominar-se também “teologia”. Mas ela é principalmente estudo do ser enquanto ser, independentemente de qualquer distinção que o reduza a este ou aquele tipo de ser, e das propriedades que pertencem a ele enquanto tal. Sob este aspecto, isto é enquanto estudo do ser considerado em si mesmo, a metafísica chama-se “filosofia primeira”.

Principio de Não-Contradição

Mas, pergunta-se é possível um conhecimento tão árduo e sublime como este, ao qual aspira á metafísica? Terá a mente humana a capacidade de atingir o ser enquanto tal e as razões e causas últimas de todas as coisas?

Aristóteles tem consciência de que a sua tentativa de estudar a natureza e as razões últimas do ser não terá nenhum resultado se ele não solucionar antes essas questões. Primeiramente é necessário mostrar que o conhecimento humano tem valor objetivo e certo, pelo menos em relação a algumas verdades fundamentais. Ora, entre todas as verdades há uma que goza de prioridades; esta verdade é o principio da não-contradição.

Assim após definir a natureza e a competência da metafísica, Aristóteles passa ao estudo do valo do principio de não-contradição. A sua definição deste principio é clássica: “È impossível que a mesma propriedade, considerada do mesmo ponto de vista, possa pertencer e não pertencer á mesma coisa”. Este princípio, segundo o Estagirita, tem as seguintes propriedades: é conhecidíssimo, infalível, absoluto, indemonstrável.

“O mais firme de todos os princípios é tal, que o erro a respeito dele é impossível. Ele é, por necessidade, o mais conhecido de todos; e o erro tem lugar somente em relação ao que não se conhece. Ele não tem nada de hipotético, já que não pode se hipotético o que está implicado necessariamente na inteligibilidade de qualquer coisa. E é também tal que, seja qual for á coisa que alguém aprenda, este principio não poderá aprender, porque já o conhece; de modo que, quem vai á escola, já o sabe. Tal principio é, portanto, o mais claro de todos”.

Por causa desta propriedade do ser pressuposto a qualquer outro conhecimento, o princípio de não contradição é indemonstrável:

“Pretender que ele deva ser demonstrado é conseqüência da ignorância: porque não é senão ignorância não saber discernir de quais coisas se deva procurar a demonstração e de quais não. Evidentemente é impossível que tudo deva ser demonstrado, que princípio, a não ser este, poderiam elas pôr á sua frente?”

Pode-se defender o principio de não-contradição mostrando que a sua negação torna impossível a vida do pensamento e a vida prática.

“De certo modo pode-se, todavia, demonstra-lo indiretamente, mostrando que é impossível nega-lo, mas isto com a condição de que aquele que o nega de um significado ao que diz: porque, se o que ele diz não significa nada, seria ridículo pedir-lhe razões, uma vez que, não raciocinando, não pode dar razão de nada...”

Na defesa do principio de não-contradição, Aristóteles demonstra que as doutrinas de Protágoras e Heráclito soam falsas. Contra Protágoras ele afirma que:

“a sensação nunca diz, no mesmo momento e em relação ao mesmo objeto, que ao mesmo tempo é assim e não é assim. E, em tempos diferentes, a duvida não recai nunca sobre a qualidade sensível como tal, mas talvez, sobre o objeto ao qual pertence tal qualidade. Quero dizer, em outras palavras, que o mesmo vinho pode parecer doce agora e amargo depois; isto porque houve alteração nele ou em nossa disposição; mas o doce, enquanto doce, quando existe, não muda nunca: é sempre verdadeiro de si mesmo; o doce será sempre doce de tal modo”.

“A doutrina que ensina aparece aos sentidos é necessariamente verdadeiro depende, em última análise, de pensar que o intelecto se reduz no sentido e o sentido, a uma alteração orgânica”.

Contra Heráclito e seus seguidores escreve ele: “Estes, observando que toda a natureza está em movimento, pensavam que, como não se pode dizer nada de determinado do que se está mudando, do mesmo modo não se pode afirmar nada deste mundo que apresente o aspecto de universal e de ininterrupta mudança”.

“(...) Mas é necessário precisar: o objeto que, com a mudança, perde alguma coisa conserva também alguma coisa daquilo que perde e já é necessariamente alguma coisa daquilo que se está tornando. E simplesmente, se existe corrupção, existe algum ser; e se existe geração, existe necessariamente algum ser que gera e do qual se gera (...)”

Em conclusão: “Não se pode sustentar que todas as afirmações sejam verdadeiras, nem que todas sejam falsas. E isto seja pelas muitas incongruências que se seguiriam de semelhante tese, seja porque, se todas as afirmações fossem falsas, estaria em erro também aquele que assim fala; e se todas as afirmações são verdadeiras, estará na verdade também aquele que diz que todas são falsas”.

Ato e Potência

A percepção do mundo sensível mostra que tudo se transforma continuamente. Para dar conta disso, Aristóteles elabora as noções de ato (energeia) e de potência (dynamis).

O Ato refere-se ao estado atual do ser, como existe aqui e agora. Ato é toda realidade que, como a forma, tem como características ser determinado, finito, perfeito, completo.

A Potência é qualquer realidade que, como a matéria, tem como propriedades ser indeterminada, ser passiva e ser capaz de assumir varias determinações. Por outro lado, indica aquilo em que este ser se transforma, sem, no entanto deixar de sê-lo.

“A semente de uma árvore, enquanto ato, é semente, mas como potência é a árvore que dela vai germinar. As mudanças e o movimentos são os modos como às potencialidades do ser vão se atualizando, passando da potência ao ato”.

As noções de ato e potência constituem a maior descoberta, a mais profunda instituição metafísica de Aristóteles. Mas, como todas as grandes intuições filosóficas, também as noções de ato e potência tem uma base empírica muito simples como se vê dos exemplos usados por Aristóteles (as relações de ser jovem e vir a ser idoso).

A potência, como primeiro principio, é indefinível. No máximo pode-se esclarecer seu conceito com alguma descrição e exemplificação: “chama-se potência aquilo que não encontra impossibilidade para torna-se ato quando sobrevém o ato” exemplo: existe um paciente (ato) e pode vim há sofrer (potência), seu estado de ser enfermo o faz ser um ato de paciente, e o seu devir a sofrer (potência) segundo a potencialidade de esta na condição de doente, possa lhe trazer o sofrimento, que dizer, esta doente não necessariamente o faz sofre, e para sofrer não precisa esta doente. Entendeu...

“(...) O ato é para a potência, aquilo que o edifício é para o saber edificar, o estar acordado para o dormi, o ver para não ver, mesmo o objeto que se derivou da matéria bruta”.

O Vir a Ser

O vir a ser é um potência que se está atuando (não pura potência, nem potência já atuada). Por isso, ele é definido por Aristóteles como o “ato de um ser em potência enquanto tal”, isso é, enquanto ainda está em potência. Ele justifica esta definição do modo seguinte: “O movimento não pode ser reduzido simplesmente á potência ou ao ato; isto porque pode ser reduzido simplesmente á potência ou ao ato; isto porque pode muito bem acontecer que certa quantidade de uma coisa esteja em potência sem esta, por isso, em movimento; e pode também estar em ato aquela mesma quantidade, sem que, por isso, a coisa esteja em movimento”.

“O movimento apresenta-se, contudo como uma espécie de ato: de um ato imperfeito, já que ainda não levado a tremo. Daí a dificuldade de definir a natureza do movimento, uma vez que para defini-lo é necessário reduzi-lo á privação ou á potência ou simplesmente ato; mas ele não pode ser colocado em nenhuma dessas classificações”.

“Resta, portanto, que ele seja o que se disse: ato e, contudo não ato no sentido pleno: difícil, sem duvida de ser pensado, as nem por isso menos real”

Quando ao sujeito do movimento, Aristóteles observa atentamente que ele não pertence só ao movido, nem só ao motor: é um ato dos dois. De fato, “o motor não é diferente do ato do movido, sendo um só o ato de ambos (...). De modo que o ato do motor coincide com o do movido: de modo semelhante, o intervalo de um a dois é o mesmo que de dois a um, e o caminho em subida é o mesmo que em descida (quer dizer: em sua trajetória o ato puro não se altera, e não deixa de ser ato pelo seu mover) O mesmo vale par o motor e o movido”

Do vir-a-ser, segundo Aristóteles, há quatro espécies principais: “Algumas mudanças dizem respeito á substancia mesma, outras á qualidade, outras á quantidade, outras ao lugar. A mudança substancial chama-se simplesmente geração ou corrupção; a mudança qualitativa, alteração; a mudança quantitativa, aumento ou diminuição; e a mudança local, translação”.

Quando á possibilidade do vir-a-ser, contestada por Parmênides com o famoso dilema: “nenhuma coisa pode vir a ser porque já é ou não é; se já é, não pode vir a ser porque já é: se ainda não é, não pode vir a ser a ser porque do nada não vem nada” Aristóteles responde enfrentando diretamente o dilema. Tanto o ser como o não-ser se dizem de dois modos: ser ato e ser em potência; não-ser absoluto e não-ser relativo (relativo é o não-ser da potência). Ora, impossibilidade de vir a ser existe para o ser em ato e para o não-ser absoluto, não para o ser em potência ou, o que dá no mesmo para o não-ser relativo. Por exemplo, o bando sendo já banco, não pode mais torna-se banco; mas pode torna-se banco o pedaço de madeira, o qual em relação á forma de banco, ainda está em estado de não ser (evidentemente de um não-ser relativo porque, como madeira, já tem uma realidade).

A Física

Como já sugere o próprio título da obra, a física é o estudo da natureza (physis).

A característica principal das coisas naturais, segundo Aristóteles, é o movimento, o vir-a-ser.

Aristóteles parte da constatação de que “os seres da natureza, todos ou parte deles, são movidos, como resultado da indução” (ou seja, da experiência). O fato de serem movidos significa que eles vêm ao ser, que mudam e que estão sujeitos á geração e á corrupção. Logo, ele conclui, o termo “natureza” designa coisas “que tem em si mesmo um principio de movimento e de parada; umas em relação ao lugar; outras em relação ao crescimento e diminuição, e outras ainda em relação á alteração”.

Como já vimos na Metafísica, Aristóteles não acha aceitáveis as teorias de outros filósofos há respeito do vir-a-ser (nem a de Parmênides, que rejeita o vir-a-ser, nem a de Heráclito, que quer reduzir tudo a um perpétuo vir-a-ser). Para ele, uma explicação plausível deste fenômeno só é possível se admitirem dois princípios: a matéria e a forma. O vir-a-ser consiste justamente na passagem da matéria de uma forma para outra.

O movimento dá-se sempre no espaço e no tempo. Mas para Aristóteles, nem um nem outro são realidades autônomas, mas acidentes da substancia que vem a ser: o espaço é a distância entre os corpos; o tempo “é a medida do movimento segundo antes e depois”.

As formas principais do devir são quatro: movimento quantitativo (crescimento e diminuição), movimento qualitativo (alteração), movimento local (translação), movimento pelo qual uma coisa começa a existir (geração) ou deixa de existir (corrupção).

Principio fundamental do devir é que “tudo o que se move á movido por outro”. Aplicando rigorosamente este principio Aristóteles prova (de uma forma bem engenhosa na física, mas este conceito vai ser desenvolvido na Metafísica) a existência de um primeiro Motor imóvel.


Existência e Natureza de Deus.

A Metafísica encerra-se, logicamente com o tratado sobre Deus. No universo aristotélico é ele que mantém de pé todo o edifício.

Até aqui Aristóteles falou das causalidades do Ser, das Substancias Supra Sensíveis, dos Princípios de Não-Contradição, do Ato em Potencia, do Vir a Ser e seus movimentos, e por meio desses enigmáticos temas. Aristóteles tentara demonstrar que suas deduções lógicas e theoreticas têm uma finalidade, ou seja, um Motor Imóvel “Deus”.

E uma outra obra chamada a “Física”, Aristóteles já tratara amplamente da existência de Deus. Na Metafísica ele retoma de modo sintético, os elementos fundamentais da prova de Deus, são os seguintes: o fato do devir (a experiência mostra-nos que as coisas estão sujeitas as incessantes mudanças) e os dois princípios: a) tudo que se move é movido por outro (ou por si mesmo enquanto outro); b) na série dos que movem (isto é, dos motores) não se pode retroceder infinitamente.

Por esses dois exemplo Aristóteles acaba por admitir que existe um motor principal que move todas as coisas do universo, isso que dizer “O Motor Imóvel”, por essa afirmação surge a célebre prova aristotélica da existência de Deus pela existência do movimento (mudança continua). Não é a única prova usada por ele; nas obras juvenis ele usou também as provas baseadas nos graus de perfeição e na ordem das coisas.

Se tudo tem sua causa, é preciso supor uma causa primeira, que tenha dado início ao ciclo infindável de potência-ato-potência. Tal causa primeira, por ser a pri­meira, não pode ter sido causada por alguma outra. Deve ser imóvel, pois o movimento supõe uma causa, e nesse caso ela não seria a primeira. Tampouco possui potencialidades, pois se as tivesse acabaria por se mo­ver, transformando-se em ato.

Não pode ser material: a rigor, a matéria só existe numa forma, o que significa que uma causa eficiente a uniu; deve ser então forma pura. Imóvel, ato puro sem potência e pura forma, a causa primeira pôs em movimento o conjunto do uni­verso. É o motor imóvel ou Pensamento de Pensamento.

“Sendo imóvel, Deus é ato puro, único, inextenso, eterno, inteligente, pensamento de pensamento, etc.”.

Segundo Aristóteles, Deus move o mundo e o universo somente com os seus motores, não por seu interesse com o mundo ou com o ser humano, mas sim por meras causalidades de movimento de seus motores. De fato, Deus move o mundo sem ser movido. E o movimento do Mundo e de todas as coisas que existem tendem a sua finalidade e não a sua causa eficiente (sem arquiteto e administrador do mundo).

A operação própria de Deus é o pensamento, um pensamento sempre em ato (de outro modo Deus seria como alguém que estivesse dormindo), que tem por objeto a si mesmo (de outro modo dependeria do objeto externo e assim seria inferior a ele). Enfim Aristóteles tem uma concepção divina diferente de nossa crença Cristã, para ele Deus não conhece o mundo nem as coisas que existem nele.

Para Aristóteles salvar a transcendência e a existência Primeiro Motor “Deus”, ele vai afirmar que Deus não participou da “Criação”, “Providencia” e “conhecimento do mundo”, Portanto o Deus de Aristóteles não cria o mundo, não cuida dele e não o conhece.

É um espírito puríssimo, que não pode ter nenhum contato com a matéria: Deus não toca na matéria, não a conhece e nem a cria. Deus não se importa com o mundo; pode-se até dizer que está de costas para ele. Mas o mundo e as suas causalidades sentem fascínio por ele, e em um estado de grande arrebatamento, se move na direção dele como para a sua finalidade.

Estudiosos de todos os tempos (Padres, escolásticos e autores contemporâneos) se pronunciaram sobre o valor do pensamento religioso de Aristóteles. A muitos ele pareceu frio, abstrato e principalmente racionalista, cuja definição cairia muito bem em sua forma de pensar algo supra-sensível, por isso os pensadores medievais não deram muitos créditos para Aristóteles, por não satisfazer ás exigências eclesiásticas, Aristóteles só vais ser resgatado com São Tomas de Aquino no século XII, que irá fazer de sua filosofia um argumento racionalista para a fé católica.

Quanto a nós seres do século XXI, julgamos Aristóteles com base em uma leitura de revelação Bíblica, e esquecemos que ele rompeu com as crendices religiosas da Grécia antiga e com os argumentos mitológicos da época, Aristóteles faz algo sublime (tenta fazer filosofia primeira) tenta chegar há um principio pela metafísica, o que é mais louvável é pensar “Theologicamenteem um Ser Supremo “Deus” sem um argumento religioso. E faz do homem um ser capaz de pensar ou descobrir algo essencial em recorrer necessariamente á religião.

A imobilidade da causa primeira

Se tudo tem sua causa, é preciso supor uma causa primeira, que tenha dado início ao ciclo infindável de potência-ato-potência. Tal causa primeira, por ser a pri­meira, não pode ter sido causada por alguma outra. Deve ser imóvel, pois o movimento supõe uma causa, e nesse caso ela não seria a primeira. Tampouco possui potencialidades, pois se as tivesse acabaria por se mo­ver, transformando-se em ato.

Não pode ser material: a rigor, a matéria só existe numa forma, o que significa que uma causa eficiente a uniu; deve ser então forma pura. Imóvel, ato puro sem potência e pura forma, a causa primeira pôs em movimento o conjunto do uni­verso. É o motor imóvel ou Pensamento de Pensamento.

O universo: mundo supra-lunar e mundo sublunar

O universo é classificado por Aristóteles em duas grandes regiões: o mundo supra-lunar e o mundo sub­lunar. O primeiro é a região onde se situam os corpos celestes, cujo movimento circular, perfeito e eterno, sem começo nem fim, assemelha-os ao motor imóvel. O que está abaixo dessa região é o mundo sublunar, compos­to, segundo Aristóteles - que aí retoma Empédocles -, de quatro elementos: água, ar, terra e fogo. São eles a causa material de tudo o que existe neste mundo, desde as coisas inanimadas, como pedra e mar, até os seres vivos (vegetais e animais), dependendo da forma que assumem.

O mundo sublunar caracteriza-se pela imperfeição, o que equivale a dizer que as coisas que o compõem estão sujeitas à geração e à corrupção, isto é, ao nasci­mento, à degenerescência e à morte. A imperfeição também significa violência: o nascimento de uma coisa implica a morte de outra. Além disso, os movimentos físicos também são uma violência. Para Aristóteles, os elementos do mundo sublunar só saem de seu "lugar natural" mediante a violência. É o caso, já citado, da pedra ("pesada") atirada (modo violento) para o alto: ela volta ao chão, pois retornar é sua causa final.

Do mesmo modo, como também já se viu os corpos "le­ves" tendem para o alto, que é seu lugar natural, e é por isso que sobe a fumaça de uma fogueira. À luz da física moderna, essas idéias parecem absurdas e ingênuas, e é por isso também que Aristóteles é até hoje combatido como inimigo da ciência. Mas é preciso ad­mitir que ele nada mais fez do que seguir à risca o que o pensamento científico iria considerar seu principal trunfo: a observação, pela qual se percebe, por exemplo, que os corpos pesados caem e os leves sobem.

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